A França em pé de guerra
Os protestos contra a reforma trabalhista que o governo do presidente François Hollande quer promover puseram a França em ebulição. Os protestos vinham se intensificando desde a campanha chamada de Nuit Debout, “Noite em pé”, que consistia na ocupação da Praça da República dia e noite pelos manifestantes. O enfrentamento com a polícia começou quando as autoridades deram ordem para que a praça, ponto histórico e nevrálgico de Paris, fosse desocupada durante a noite.

No final de maio houve enfrentamentos generalizados no país inteiro, com a mobilização promovida por centrais e sindicatos, Confederação Geral do Trabalho (CGT) à frente. A situação atingiu um ponto crítico com a paralisação do setor de energia. Segundo a CGT, 16 das 19 centrais nucleares do país foram paralisadas, total ou parcialmente. O setor é responsável pelo fornecimento de 75% da energia elétrica consumida na França. A entidade anunciou também que cinco das oito refinarias de petróleo estavam paralisadas. O governo está mobilizando suas reservas de combustível para atender à demanda, enquanto as filas se alongavam nos postos de abastecimento.

A paralisação chegou a atingir a imprensa escrita, com quase todos os jornais franceses de grande circulação impedidos de imprimir seus exemplares em 26 de maio. A causa foi a recusa, por quase todos eles, de divulgar um comunicado da CGT sobre o movimento. A exceção ficou com o L’Humanité. Este jornal, hoje independente, foi tradicional porta-voz do Partido Comunista Francês, mantendo-se fiel a suas raízes.

As reformas propostas são muito extensas, mas de modo geral pode-se dizer que seu objetivo é o de flexibilizar a contratação e a dispensa de trabalhadores por parte das empresas, além de mexer na fixação de horários de trabalho e descanso ou férias remuneradas. O principal ponto de discórdia está no chamado “artigo 2” da reforma. Esse artigo prevê a possibilidade de que acordos feitos nas empresas, quanto à distribuição das horas de trabalho e à remuneração, se sobreponham a acordos coletivos feitos com as centrais e sindicatos. As entidades argumentam que isso fragilizará os trabalhadores das médias e pequenas empresas, onde a representação sindical é menor, devido também à flexibilização das contratações e dispensas.

Divisão

O Partido Socialista está dividido frente a essa e outras questões da reforma. A popularidade de Hollande, que subira depois dos atentados promovidos pelo Estado Islâmico, em novembro, voltou a cair. O secretário-geral da CGT, Philippe Martinez, chegou a pedir uma audiência diretamente com o presidente para negociar o impasse e a crise, passando por cima do primeiro-ministro, Manuel Valls – que até o final de maio se punha no papel de interlocutor governamental.

Dizem muitos analistas que quem vem lucrando com estes confrontos e impasses é a Frente Nacional, de Marine Le Pen, de extrema-direita. O ex-presidente ­Nicolas Sarkozy, que pretende se recandidatar em 2017, também está com sua popularidade abalada. Mas é possível que nas próximas eleições haja um segundo turno entre ele e Le Pen.

As reformas propostas pelo governo socialista vão na esteira da conversão da social-democracia política europeia aos princípios do neoliberalismo. Esta conversão atingiu de frente o Partido Trabalhista britânico e o Partido Social Democrata alemão no final do século passado, além do socialista da Espanha (Psoe).

O Partido Trabalhista britânico – que iniciou sua guinada neoliberal na gestão de Tony Blair (1997-2007) – ensaia agora, sob a liderança de Jeremy Corbyn, uma reconversão a seus princípios históricos. Os críticos dessa volta às origens, inclusive dentro do próprio partido, veem essa tentativa como uma marcha à ré que poderá levá-lo a um desastre eleitoral. Os partidários dele, no entanto, apontam-no como um passaporte para o futuro, aumentando sua diferenciação em relação aos conservadores de James Cameron e do chanceler financeiro, George Osborne.

Impasse

A resignação ao conservadorismo econômico levou também o Psoe espanhol a perder terreno no campo popular-progressista para o novo partido Podemos, que emergiu no ano passado como terceira força eleitoral. Mas o país encontra-se diante de um impasse, pois nem o conservador Partido Popular, nem a dupla socialista (Psoe mais Podemos) conseguiram formar um novo governo. O impasse será submetido a novas eleições legislativas em 26 de junho.

O Partido Social Democrata alemão também enfrenta dificuldades, com queda nas pesquisas de intenção de voto, enquanto sobe a estrela do Alternative für Deutschland, novo partido apontado como de extrema-direita (ainda que não tão radical como a Frente Nacional francesa), e que hoje já aparece como terceira força no país, segundo as pesquisas.

Na França, a perda de terreno do Partido Socialista não favoreceu os movimentos mais à esquerda, pelo menos até o momento. Ao contrário, analistas apontam que em muitos redutos tradicionais onde o voto era socialista a Frente Nacional vem fazendo progressos. Pode ser que o atual movimento das centrais e dos sindicatos contribua para reverter esse cenário. Para tornar a situação mais complexa, em todos esses ­países e em outros da União Europeia ela tem sobre si a questão – para muitos um fantasma – da recepção aos refugiados que chegam ao continente, com a extrema-direita estimulando e capitalizando o sentimento xenófobo.

De todo modo, essa atitude mais combativa de sindicatos e da CGT pode trazer-lhes de volta uma liderança que estavam perdendo. Embora fortes entre os trabalhadores de mais idade, essas organizações mais tradicionais encontraram resistência na maioria dos jovens – que acorreram ao Nuit Debout – de reconhecê-las como referência.
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